sábado, 25 de janeiro de 2014

A Bossa Nova no seu devido lugar

Incrível, mas esse dia existe. Todo 25 de Janeiro é comemorado o dia nacional da bossa nova.  Está na lei! Poucas pessoas sabem disso, mas a lei é a de nº. 11926 de 2009, sancionada pelo Sr. Luis Inácio Lula da Silva. Fala sério, ninguém merece! Fosse um movimento musical consolidado e ainda em atividade até mereceria esse tipo de homenagem, mas o movimento foi vítima de total abandono pelos seus próprios criadores no apagar das luzes da década de sessenta.

Infelizmente, o Brasil é um país aonde tudo é descartável e de maneira bem rápida, sobretudo os principais movimentos culturais. Mesmo que tenham força e sejam de altíssima qualidade. Todos têm vida curta e não duram sequer uma década. Quando surge um novo movimento cultural, como por exemplo, na esfera músical, todos acreditam que tal movimento surgiu para substituir o que estava na onda. Somente no Brasil isso acontece.

O Jazz e o Blues nos Estados Unidos atravessaram o século XX e continuam a pleno vapor. Não foram ofuscados pelo Rock, pelo Funk (Funk neste caso é o legítimo, criado por James Brown e não esse lixo carioca que chamam de funk e também conhecido como pancadão) pela Música Eletrônica, pela Soul Music ou outro gênero qualquer. Em outros países os movimentos e estilos musicais são praticamente eternos, resistem aos modismos do momento e se reinventam de acordo com a criatividade de cada artista.

Eu divido a Bossa Nova em três fases ascendentes:

Primeira Fase: A do banquinho e violão no final da década de cinquenta. Muitíssimo chata, com músicas cantadas por péssimos interpretes e que cantavam sussurrando com voz pastosa e pareciam que estavam embriagados. Vai ver estavam mesmo. Sim, falo de João Gilberto e Tom Jobim, sem desmerecer logicamente o trabalho deles como grandes compositores consagrados mundialmente. Mas que cantavam mal, cantavam mesmo. É de dar engulhos.

Segunda Fase: A fase instrumental, quando geniais e competentes maestros colocaram seus dedos mágicos nos arranjos como, por exemplo, Luiz Eça, Eumir Deodato, Luiz Carlos Vinhas, César Camargo Mariano, J.T. Meirelles, Cido Bianchi entre outros. Foi o apogeu do gênero. O disco “Love, Strings and Jobim: The Eloquence of Antonio Carlos Jobim”, de 1966, embora pouco conhecido é uma obra prima que representa essa fase áurea.

Terceira Fase: A última fase e que continuou instrumental, só que dessa vez foram os maestros internacionais que abraçaram o gênero e colocaram suas batutas para trabalhar. É o caso de Nelson Riddle, Norrie Paramor, Claus Ogerman e muitos outros. Dessa fase também foi editado um dos melhores discos instrumentais de bossa nova, “Wave”, de Tom Jobim, de 1967, arranjado pelo maestro Claus Orgeman.  Em 1970, Jobim ainda gravaria outra obra prima instrumental, “Tide”, com arranjo de Eumir Deodato. No mesmo ano, Jobim gravaStone Flower” , já não tão bom quanto o anterior e que praticamente encerra a fase instrumental e a própria bossa nova.


Depois disso, Jobim desceu o rio pelas águas de março contando paus, pedras e restos de tocos não tendo nada mais a ver com o movimento Bossa Nova.  Podemos considerar isso uma traição ao gênero o qual Jobim foi figura chave na sua criação. Os músicos envolvidos com a bossa nova jogaram a toalha e partiram para outros estilos. Pode ser que o bicho papão da Tropicália( que durou menos que o som de um peido)  acabou assustando esses músicos.  Durante a década de setenta ninguém mais fala e nem se lembra de bossa nova.

Vez ou outra algum músico da MPB (Música para Bobalhões), resgata o gênero na sua pior forma, a do banquinho e o violão. Mas quem agüenta isso? Na verdade, a bossa nova tem hoje uma fama mundial exponencialmente desproporcional ao que realmente foi como movimento musical no Brasil, sem naturalmente negar a sua importância de ser um gênero musical de alta qualidade a partir da segunda fase instrumental. Além disso, não era música engajada politicamente e isso também conta como ponto positivo.

Atualmente, músicos de Nu-Jazz da Alemanha, Itália, Japão, Finlândia entre outros países, debruçam sobre a bossa nova e a utilizam magistralmente como base para suas músicas eletrônicas. Arrisco a dizer que alguns até fazem melhor do que os próprios criadores do gênero. Por isso, nesta data não há que se comemorar a bossa nova, mas muito o que lamentar que seus criadores a deixaram a deriva nas águas de março fechando um verão. Era o fim do caminho.