quarta-feira, 2 de abril de 2014

O mercado da arte: a banalização da criação

Por Rodrigo Constantino


Sou um liberal, defensor do livre mercado, da globalização, do lucro como resultado legítimo de um serviço bem prestado ou um produto que atende à demanda dos consumidores. Mas isso não me impede, naturalmente, de lamentar a mercantilização de todas as esferas da vida humana. Mercado não é panaceia.

Exemplo óbvio: o amor não deveria estar à venda. Nem mesmo o sexo. Do ponto de vista legal é uma coisa, já que a mulher deve ter o direito de alugar o próprio corpo se assim desejar; do ponto de vista moral, qualquer liberal tem todo o direito de lamentar leilões de virgindade ou mesmo a prostituição. Liberalismo não é licenciosidade, libertinagem ou “vale-tudo”.

O mesmo vale para as artes, o alimento da alma, o pilar cultural que tenta fornecer à vida temporária e efêmera dos homens um toque de eternidade, um elo entre passado e futuro com base naquilo que é atemporal. Mas, de uns tempos para cá, vem ocorrendo uma banalização da criação artística, uma mercantilização de todo o processo envolvendo essa atividade que, até então, sempre foi vista como diferenciada. Um quadro não é uma banana.

Tenho escrito cada vez mais sobre o assunto, e já comentei aqui sobre uma ótima entrevista na Veja com o marchand Ralph Camargo, e aqui sobre um livro de Tom Wolfe que critica a Arte Moderna. O Segundo Caderno do GLOBO hoje também toca nesse tema, resenhando um novo documentário que acusa a commoditização do mercado artístico, dominado por milionários que ligam mais para o retorno monetário do que para o aspecto cultural da coisa.

Não vi o filme ainda, mas pelo trailer parece interessante. Seguem alguns trechos da reportagem:

Na visão tradicional e romântica, para se fazer arte são necessários um artista, poucos recursos e muita inspiração. Já na realidade do mercado internacional de arte, é preciso muito mais. Um galerista tem que adotar o artista, um investidor deve alocar os recursos para se realizar a obra, consultores tratam de espalhar a relevância daquela criação pelo mundo, e os leiloeiros cuidam para que ela seja vendida por muito dinheiro.


[...]

— Para a maioria das pessoas, a arte é um alimento para a alma. Mas, de repente, se transformou numa commodity, um item que é vendido ao redor do mundo como qualquer outro — diz, em entrevista por telefone, a cineasta francesa Marianne Lamour, diretora de “A corrida da arte”.

[...]

A diretora se recorda de uma conversa, numa feira em Hong Kong, sobre qual seria o artista mais importante do século XX. Ela esperava que alguém respondesse Picasso ou, numa visão menos tradicional, Andy Warhol. Mas se surpreendeu quando a maioria apontou Damien Hirst. “O tempo vai julgar o artista, mas o mercado já julgou o homem de negócios. Este é um gênio”, narra ela no documentário:

— O mais curioso é que em quatro anos muita coisa já mudou. Em 2010, quando começamos a filmar, era possível para um jornalista ir a feiras de arte e encontrar os grandes colecionadores e marchands. Mas, hoje, essas pessoas se tornaram tão ricas e glamourosas que as feiras são feitas de um jeito que elas não precisam se encontrar com ninguém de fora do seu círculo. É um mundo fechado e cada vez mais controlado pelos milionários.

Nada contra os milionários, muito menos contra seu direito de torrar milhões na porcaria que for. De gustibus non est disputandum. Lamento apenas o fato de que há uma crescente confusão acerca do que seja uma legítima obra de arte. Um tubarão no formol, por exemplo, não é. Por mais que tenha sido comprado por US$ 12 milhões…

Publicado na Revista Veja